Vantagens e desvantagens da Incineração e Co-incineração

5 anos ago by in Qualidade e Ambiente
10 pontos negros

Em Portugal, os Resíduos Industriais Perigosos carecem de um tratamento especial adequado, com recurso a tecnologias eficazes do ponto de vista ambiental, económico e social.

Cada vez mais, necessitamos de controlar correctamente estes resíduos, para que deles não resultem, directa ou indirectamente, impactes negativos significativos, que se traduzam em prejuízos incontroláveis e irreversíveis para o nosso país.

Existem várias estratégias colocadas como hipótese de análise e resolução do problema relativo aos Resíduos Industriais Perigosos. Entre as várias formas de tratamento dos mesmos, este artigo visa salientar e comparar duas delas, a incineração e a co-incineração, pelo facto de existirem estudos minuciosos, permitindo por isso, ponderar estas duas estratégias como melhores alternativas ao problema.

As vantagens e desvantagens associadas ao processo de funcionamento da Incineração e a Co-incineração de Resíduos Industriais perigosos são segundo os autores as seguintes:

INCINERAÇÃO (VANTAGENS)

  • Redução drástica do volume a ser descartado – A incineração deixa como produto apenas as cinzas, que geralmente são inertes. Desta forma, reduz a necessidade de espaço para aterro.
  • Redução do impacto ambiental – Comparativamente com o aterro sanitário, a incineração minimiza a preocupação a longo prazo com monitorização do lençol freático já que o resíduo tóxico é destruído e não “guardado”.
  • Destoxificação – A incineração destrói bactérias, vírus e compostos orgânicos, como o tetracloreto de carbono, óleo ascarel e até dioxinas. Na incineração, a difi culdade de destruição não depende da perigosidade do resíduo mas sim da estabilidade do calor. A incineração também pode ser usada para a descontaminação do solo contendo resíduos tóxicos. Esse, depois de incinerado, é devolvido ao seu lugar de origem (Schmidt et al., 2000).
  • Recuperação de energia – Parte da energia consumida pode ser recuperada para geração de vapor ou electricidade e conservar áreas que seriam usadas como aterros. Permite ainda uma valorização dos resíduos industriais em termos energéticos. Neste ponto de vista teremos uma reutilização de um resíduo que aparentemente poderia funcionar apenas como “lixo” e poluente (Barros et al.,2000).
  • Diminuição no consumo de combustíveis fósseis – Com a utilização dos resíduos como combustível existe uma diminuição no consumo de combustíveis fósseis. Esta substituição situar-se-á entre os 25 a 40% no consumo de combustível primário.
  • Reciclagem das escórias e outros inertes – Que podem servir como material de enchimento para a produção de asfalto, betão e também no fabrico de tijolos.

INCINERAÇÃO (DESVANTAGENS)

  • Custo elevado – A incineração é um dos tratamentos de resíduos que apresenta custos elevados tanto no investimento inicial como no custo operacional. Normalmente, deve-se incinerar apenas o que não pode ser reciclado ou que tem um nível de perigosidade de tal modo levado que o único tratamento aceitável seja a incineração.
  • Exige mão-de-obra qualificada – É difícil encontrar e manter pessoal bem qualificado para a supervisão e a operação de incineradoras.
  • Problemas operacionais – A variabilidade da composição dos resíduos pode resultar em problemas de manuseio de resíduo e operação do incinerador e também exigir manutenção mais intensa.
  • Limite de emissões – para componentes da classe das dioxinas e furanos não existe consenso quanto ao limite de emissão dos incineradores. A emissão de metais pesados não se encontra suficientemente bem estudada, bem como a incorporação destas substâncias cancerígenas no cimento (EMEP, 1999).
  • Composição química das emissões gasosas – não se conhece ao certo a composição química dos gases produzidos pela incineração de resíduos perigosos.
  • Incerteza dos efeitos das emissões – Desconhecem-se as áreas de influência das emissões e da sua deposição nos solos.
  • Agressividade da matéria-prima – A matéria-prima é muito agressiva para os equipamentos, que precisam de constantes reparos.
  • Poder calorífico – Os resíduos extremamente húmidos e com alto teor de matéria orgânica, implicam um baixo poder calorífico (WIPH, 2000).
  • Competição com outros tratamentos – A incineração compete com mecanismos de conservação de energia como a reutilização e a reciclagem de materiais.

CO-INCINERAÇÃO (VANTAGENS)

  • Altas temperaturas – Os fornos de produção de cimento elevam a temperatura da matéria prima com vista à produção do cimento até aos 1.450ºC, com temperaturas na zona da chama superiores a 2.000ºC, comparativamente com um incinerador onde as temperaturas se situam na ordem dos 1.100ºC-1.200ºC, sendo por isso as taxas de destruição nesses fornos superiores às dos incineradores (INR/MCOTA, 2003).
  • Tempos de Residência Elevados – Os tempos de residência dos gases de combustão num forno de cimento andam à roda dos 6 segundos sendo o tempo de residência a temperaturas superiores a 1.200ºC da ordem dos 3 segundos. Num incinerador os tempos de residência a temperaturas de 1.100ºC são da ordem dos 2 segundos.
  • Elevada Inércia Térmica – A enorme massa de material em processo no interior dos fornos e o comprimento dos fornos de cimento, induzem uma enorme inércia térmica, que garante que as temperaturas dentro do forno não variem rapidamente em caso de paragem ou alteração das condições de alimentação de combustível ao forno, permitindo assim grande regularidade na eficácia de destruição dos resíduos.
  • Ambiente Alcalino – Os fornos de produção de cimento devido ao facto de utilizarem como matéria-prima principal o calcário evidenciam um ambiente alcalino natural comportando-se por isso o forno como um “Scrubber seco” (lavador) natural que possibilita a neutralização dos componentes ácidos como o HCl, HF, SO2.
  • Fixação de Metais Pesados – O processo de cozedura da matéria-prima, fixa no clínquer os metais pesados, em combinações extremamente estáveis. As taxas de captação de metais pesados variam de metal para metal mas são elevadas (Whigth, 2005).
  • Qualidade do Cimento Produzido – Não há indicações de alteração de qualidade do cimento produzido, nem das condições de segurança das suas aplicações Não Geram Resíduos Sólidos – Os fornos de cimento incorporam as cinzas de combustão dos resíduos na estrutura do próprio cimento no processo de cozedura e formação do clinquer não gerando por isso resíduos sólidos devidos ao processo, ao contrário de um incinerador que gera cinzas provenientes da combustão de resíduos perigosos que constituem por si um outro resíduo que terá de ir para aterro
  • Quantidades de Resíduos – Um forno de cimento não depende dos resíduos para o seu funcionamento pois utiliza como combustível básico o carvão e matérias-primas principais exploradas nas suas pedreiras, o que evidencia uma grande flexibilidade relativamente aos resíduos produzidos num determinado momento. Assim, uma eventual redução da produção de resíduos não afecta o funcionamento do sector. Os fornos de cimento, com um limite máximo de incineração de resíduos de 40% de substituição do calor libertado, fixado pela Directiva Comunitária 94/67/CE, evidenciam mesmo com uma taxa de 25% uma capacidade de tratamento muito superior à capacidade que estava prevista para o incinerador em Portugal.
  • Custo – O custo da instalação de um sistema de co-incineração é consideravelmente inferior ao da construção de um incinerador. Os custos da exploração e portanto os custos a pagar pelos utilizadores são muito mais baixos que os que têm de pagar no incinerador: da ordem de cerca 400 euros/tonelada em média, no incinerador, para cerca de 150 euros/tonelada em média, na co-incineração nos fornos de cimento.

CO-INCINERAÇÃO (DESVANTAGENS)

  • Temperatura – Os fornos das cimenteiras não terem uma temperatura constante, terem uma extremidade com temperaturas muito elevadas e a outra com temperaturas mais baixas, o que não garante a formação de gases indesejados como as dioxinas, substâncias classificadas como cancerígenas (Schmidt et al.,2000).
  • Emissões – Para as co-incineradoras o limite máximo do valor das emissões ser cerca de 3 vezes superior ao máximo admissível para uma unidade de incineração.
  • Produção de Resíduos – Poder-se com este processo criar um desincentivo à redução de produção de resíduos uma vez que o processo estará dimensionado para queimar uma percentagem bastante mais elevada do que a que actualmente é produzida.
  • Filtros – Quando a laboração é interrompida, os filtros deixam de funcionar e os gases escapam-se, praticamente sem tratamento, pela chaminé porque os filtros de mangas previstos para as poeiras não têm capacidade para reter gases mais voláteis como o mercúrio (WIPH, 2000).
  • Metais Pesados – Não está suficientemente estudada a questão das emissões de metais pesados pelas cimenteiras na sequência da queima de resíduos industriais perigosos, nem a incorporação destas substâncias cancerígenas no cimento.

As soluções que já existem em Portugal estão longe de serem suficientes para minimizar os impactes dos resíduos perigosos que o país produz, mas mostram que, ao contrário do que o bloqueio da incineração ou da co-incineração possa sugerir, não está tudo completamente parado, mesmo porque o tratamento dos resíduos é um negócio e muitas empresas estão a mover-se nesta área, apresentando alternativas para as indústrias (Garcia, 2004).

Portugal tem muitos pontos negros de poluição, parte deles devido à deposição de resíduos perigosos, que com certeza levarão muito tempo até serem limpos, se é que algum dia serão.

Este facto, deve-se em parte, segunda Braga (1999) à inexistência de um Sistema de Gestão Ambiental adequado para este tipo de resíduos, limitando a prevenção e favorecendo as deposições clandestinas destes produtos em lixeiras a “céu aberto” ou descargas nas linhas de água, provocando contaminação do solo e dos recursos hídricos por substâncias perigosas.

Neste contexto, são necessários desincentivos à produção de resíduos, como:

  • iniciativas governamentais que incentivem a não produção de resíduos perigosos;
  • a criação de taxas a aplicar a quem produz os resíduos;
  • a aposta em metas claras para se atingir uma redução na produção, aplicando coimas às empresas que não respeitem essas metas;
  • a não atribuição de certificações a empresas que não possuam uma Política de Gestão de Resíduos que visem uma redução de produção, reutilização ou reciclagem dos resíduos e a criação de perspectivas aliciantes para as empresas que pretendam melhorar os seus processos produtivos, quer a nível tecnológico, quer a nível de fiabilidade dos processos, por forma a reduzir, a reutilizar ou a reciclar resíduos.

 

Excertos de “INCINERAÇÃO VERSUS CO-INCINERAÇÃO”, de Dulce Andreia Gomes. Clique aqui para consultar o documento completo e as referências.

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